Quando em 2008 vi nos cinemas a produção Wall-E fui categórico em afirmar que este era, até então, o melhor trabalho da Pixar e que dificilmente ela viria a se superar nos próximos anos apresentando algo de tamanha beleza, simplicidade e magia. Bastou pouco mais de um ano para que a empresa fizesse com que eu engolisse aquelas palavras e o que parecia insuperável atingiu um novo status.
Talvez Up – Altas Aventuras não tenha a mesma plasticidade deWall-E. Aqueles momentos mágicos, sem diálogo algum em meio à imensidão de um mundo deserto, tendo apenas um simpático robô como personagem e que mais parecia um Charles Chaplin moderno não foram superados.
Há também quem possa afirmar, e com toda razão, que a mensagem humanista deWall-E, particularmente ligada a situação atual em que o planeta se encontra e tendo no amor a esperança para dias melhores, também está longe de ser sobreposta. Pode até ser. Mas se colocarmosWall-E e Up – Altas Aventuras em uma balança, é possível que ela sequer se mova tamanha é a qualidade de ambos. Escolher apenas um deles: missão praticamente impossível e felizmente, por que não dizer, desnecessária.
As principais teorias de roteiro cinematográfico ensinam que os primeiros vinte minutos de uma produção servem para apresentação da história e para situar o espectador nesse contexto. Up – Altas Aventuras não foge a essa regra. Mas a maneira como exibe a história de vida de Carl Fredricksen, resumindo uma vida inteira em pouco menos de dez minutos é, sinceramente, uma das sequências mais brilhantes que já vi em toda minha vida.
Praticamente não há diálogos. Apenas algumas poucas falas de um narrador em off e da jovem Ellie. De resto apenas alguns dos momentos da vida de duas crianças que depois se casariam e dividiriam uma vida toda de alegrias e tristezas. Ao fundo, uma belíssima trilha sonora composta por Michael Giacchino (Star Trek) dá o tom a um momento memorável e encantador que, por si só, já valeria o ingresso.
Mais do que uma “simples animação”, adjetivo que de forma alguma é compatível com nenhuma das produções da empresa, Up – Altas Aventuras tem em sua estrutura elementos dos mais variados. Desde a concepção do roteiro, prevendo bons diálogos e sequências de ação, até a animação em si, a composição dos personagens, os belíssimos cenários e a trilha sonora original, tudo funciona de maneira harmoniosa na produção.
A trama segue os passos de Carl Fredricksen, um ex-vendedor de balões que depois do falecimento de sua esposa passa os dias solitário, em sua casa ameaçada de demolição pelo avanço do progresso. Decidido a fugir de tudo isso, Carl parte em uma viagem em busca de um paraíso na América, um antigo sonho de sua esposa, de uma maneira nada convencional: com sua própria casa amarrada a balões.
Embora objetivamente isso possa não ter sentido, simbolicamente a alusão ao momento de vida de Carl bem como a mensagem que a produção pretende transmitir é perfeita. Amarrado à sua casa, às suas memórias e às lembranças materiais, Carl se esquece que o que mais importa não é o destino, e sim a viagem. A felicidade só existe quando é compartilhada. E juntos, ao longo de toda uma vida, mesmo não realizando os maiores sonhos, é a caminhada lado a lado e não o destino final que importam.
Essa premissa é retratada com louvor em cada gesto ou elemento do cenário. Até mesmo a aridez do paraíso, com suas formações rochosas, em contraste com o caminho percorrido pelo personagem, onde a floresta é abundante, mostra-se uma perfeita ilustração desse sentimento.
Os elementos em 3D da produção pouco acrescentam. Se não chegam a ser adereços completos por outro lado também não se constituem em uma linguagem. A tecnologia acaba funcionando mesmo apenas como um simples complemento, mas ainda inexplorado.
Outro ponto que vale ser ressaltado é a dublagem brasileira. Não costumo comentar sobre isso, uma vez que claramente dou preferência a sons e vozes originais. No entanto, a dublagem de Chico Anysio para o personagem Carl é, sem dúvida, brilhante, digna da qualidade daquele que é um dos maiores comediantes da história do país, com reconhecida habilidade para vozes e criação de personagens.
Com Up – Altas Aventuras a Pixar não apenas se supera como cria um novo sentido a palavra “padrão de qualidade”. Afinal em raríssimas ocasiões um estúdio produziu tantas obras em sequência num nível tão alto de qualidade. Como comparativo, vale citar a Disney nas décadas de 30 e 40, onde sob o comando de Walt Disney algumas das animações mais memoráveis foram produzidas. Definitivamente John Lessester, o homem forte da Pixar, caminha a passos largos para desenhar seu nome como uma das mentes mais brilhantes que o cinema já produziu.
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