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::.. TRON - O LEGADO ..::
::.. Sinopse ..::
Depois de ser transportado para o surreal cenário de um computador de grande porte para destruir um vírus, um hacker se encontra envolvido em uma rebelião contra uma corrupta entidade cibernética.
::.. Ficha Técnica ..::
Título Original: Tron - Legacy.
Origem:
Estados Unidos, 2010.
Direção:
Joseph Kosinski.
Roteiro:
Adam Horowitz, Richard Jefferies e Edward Kitsis.
Produção:
Sean Bailey, Steven Lisberger e Jeffrey Silver.
Fotografia:
Claudio Miranda.
Edição:
James Haygood.
Música:
Daft Punk.
::.. Elenco ..::
Olivia Wilde, Garrett Hedlund, Michael Sheen, Jeff Bridges, James Frain, Beau Garrett, Bruce Boxleitner, Yaya DaCosta, Serinda Swan, Amy Esterle, Elizabeth Mathis, Michael Teigen, Brandon Jay McLaren, Owen Best, Steven Lisberger, Anis Cheurfa, Thomas Bangalter,Guy-Manuel De Homem-Christo, Wes Armstrong, Jennifer Ingrum, Dawn Mander e Ethan Stone.
::.. Site Oficial ..::
http://disney.go.com/tron
::.. Premiações ..::
-
::.. Saiba mais ..::
Segundo filme da série. O anterior foi Tron - Uma Odisseia Eletrônica (1982).
::.. Trailer ..::
::.. Crítica ..::

No início da década de 80, levar às telas produções de ficção científica não era uma tarefa das mais fáceis. Efeitos especiais limitados e acessíveis apenas a grandes orçamentos, incompreensão por parte do público, em especial pelo fato de a tecnologia não estar tão popular quanto hoje, e a sombra onipresente da saga Star Wars eram alguns dos empecilhos que fizeram com que muitas produções fracassassem nas telas ou, ainda pior, sequer chegassem a ser realizadas.

Entre as centenas de títulos lançados na década de 80 o simpático Tron – Uma Odisseia Eletrônica foi a aposta da Disney para unir aos seus conceitos familiares a ainda incipiente indústria dos vídeo games. Longe de serem o negócio bilionário que se transformaram, ela ainda engatinhava com jogos de baixa qualidade gráfica e parcos recursos, mas com uma criatividade inigualável capaz de fazer os games de hoje em dia parecerem efêmeros diante de títulos como Pac Man, Enduro ou River Raid.

Quase 30 anos depois, o panorama mudou consideravelmente em praticamente todos os aspectos. O mundo dos games se tronou um dos braços mais fortes do entretenimento, sendo responsável números astronômicos de faturamento e vendas de jogos e consoles. A tecnologia, antes escassa, hoje está mais do que nunca acessível a qualquer usuário, o que dizer então dos grandes estúdios. Fazer ficção científica hoje no cinema não precisa ser, necessariamente, uma aposta de dezenas de milhões. Até mesmo a Disney, com seu conceito de entretenimento familiar, aos poucos começa a se mostrar mais aberta e receptiva a projetos mais maduros e sombrios, porém não distantes do seu ideal.

Se tanta coisa mudou e aquele mundo que vivíamos há três décadas era tão distinto de hoje, quais razões poderiam explicar a volta de Tron aos cinemas? Entre as muitas possibilidades, talvez a mais emblemática seja o ideal de transmitir um legado de uma geração para outra. Os filmes e séries que nossos pais viram no passado e que parte do público mais jovem conhece hoje apenas por relatos ou imagens de baixa qualidade, aos poucos se tornam acessíveis num ciclo de produção que parece cada vez mais natural. E é no cerne dessa premissa que reside tanto a aposta quanto o propósito de Tron estar de volta às telas.

Tal pai, tal filho

Entre todos os elementos que Kevin Flynn (Jeff Bridges) parece ter deixado como legado para o seu filho Sam Flynn (Garrett Hedlund), a obstinação parece estar longe deles. Enquanto o pai dedicou boa parte de sua vida a um projeto revolucionário, Sam parece pouco se importa com aquilo que possui. Seu estilo de vida, e as habilidades do jovem apresentadas logo no início da trama demonstram uma formação de caráter no mínimo dúbia: de um lado o menino brigão, pouco preocupado com alguma coisa que não seja si mesmo; de outro um jovem disposto a qualquer coisa apenas para manter vivo o ideal do pai.

Essa dualidade serve perfeitamente ao propósito da trama e, como posteriormente o espectador descobre, servirá de maneira singular para ilustrar o dilema vivido por Kevin, renegado à servidão do mundo que ele mesmo criou. A viagem de Flynn para o mundo de Tron funciona, num segundo plano, como uma viagem para dentro de si mesmo em busca de suas raízes.

Um mundo de neon

Tudo parece perfeito no mundo de Tron. Embora o visual exuberante e recheado de luzes de neon seja o grande responsável pelo impacto visual, tanto as construções com aspecto moderno e amplos espaços, bem como os figurinos futuristas deixam claro que aquele não é um lugar como qualquer outro. O mundo de Tron, habitado pelos programas virtuais é exato, métrico e previsível.

Enquanto máquina, embora questione a sua dependência do usuário humano, cada um dos elementos presentes ali se vê submisso aos fatores incompreensíveis e imprevisíveis que só uma legítima forma de vida seria capaz de conceber. Como explicar de maneira lógica um Julio Verne? Ou descrever de forma objetiva como é a sensação de presenciar um pôr do sol?

De maneira inteligente, o roteiro de Edward Kitsis e Adam Horowitz (ambos autores de mais de 21 episódios da série Lost) contrapõe a ostentação visual com situações cotidianas às quais deveríamos, da mesma forma, nos maravilhar, mas que deixamos de lado por nos parecerem banais e corriqueiras. Essa contraposição, não só auxilia na composição das transformações dos personagens como também revela o aspecto ideológico de criador desse mundo, uma figura enigmática magistralmente personificada por Jeff Bridges.

Daft Punk e a ópera eletrônica

É impossível desvencilhar Tron – O Legado de sua trilha sonora. Composta pela dupla francesa Daft Punk, a música se faz onipresente do começo ao fim. Não há um segundo sequer de descanso. Mesmo nas sequências em que o argumento por si só seria capaz de criar uma tensão, a música pontua numa espécie de ópera eletrônica.

Ditando o ritmo da ação, a trilha embora dispensável em alguns momentos é uma das principais responsáveis por manter o clima do filme sempre em alerta, como se algo revelador pudesse ocorrer em qualquer momento. A sequência de luta que se passa em um bar, por exemplo, permite que a ação se torne mero recurso estético, uma espécie de videoclipe para mais uma de suas apresentações.

Para entender a importância da dupla na concepção estética, por exemplo, basta conferir videoclipes como o premiado Around The World para notar ali, ainda que de forma mais simples, boa parte da estrutura de figurinos e gestual utilizadas em Tron – O Legado. Tamanha importância, em alguns poucos momentos, acaba pesando contra o filme, fazendo com que a trilha se sobreponha a obra em si.

O velho e o novo Bridges

Em geral, trabalhos de efeitos especiais e maquiagem que lidam com a necessidade de mostrar o passar dos anos de um personagem foca no seu envelhecimento como contraposição natural. Em Tron, temos o processo oposto: um Jeff Bridges tão jovem quanto o ator que estava presente no filme dos anos 80. O trabalho de concepção visual do seu rejuvenescimento se assemelha muito ao realizado no filme O Curioso Caso de Benjamin Button.

O resultado é curioso e, embora em algumas expressões seja nitidamente perceptível o rosto acentuadamente "perfeito" do ator não há como negar que o aspecto é primoroso. De fato, talvez esse seja um dos principais, senão o principal efeito especial do filme, tamanha é a sua significância para o desenrolar da trama em consequentemente, para que o filme funcione.

Além dos efeitos, Bridges empresta ao seu personagem uma atuação convincente e apaixonada. Com um olhar consegue se impor, mas com uma lacuna deixada no ar podemos notar toda a sua angústia. Jeff Bridges salta aos olhos nas cenas ao lado de Garrett Hedlund – fraco e sem muita personalidade, mas longe de uma atuação comprometedora – e Olivia Wilde – centrada, belíssima e, sem dúvida, a mais grata surpresa entre as atuações.

Nasce uma nova era?

Tron – O Legado certamente não estará na lista dos melhores filmes de 2010. No entanto, nem por isso ele deixa de ter o seu valor e consegue ir muito além do que uma simples revitalização da franquia para deixa-la com um visual mais moderno. A produção aposta numa trama simples, mas fiel às suas origens, funcional em termos técnicos e muito bem respaldada pela trilha sonora e pelos efeitos especiais.

A aposta da Disney não parece ser para apenas uma única temporada de inverno. A maior prova disso é o alto investimento também em um parque temático e uma infinidade de produtos licenciados tendo a marca antigo game como referencia para as vendas. É de se imaginar que a saga de Tron nos cinemas esteja apenas recomeçando. Por isso, não se espante se após os primeiros resultados de bilheteria, caso sejam positivos, surgir o anúncio de uma continuação.

Dar continuidade aos mitos que ela mesma cria é a maior aposta de um empresa que cresceu tornando-se referência para diversas gerações. Nada mais natural que a Disney se permita ousar um pouco mais para dar um novo sopro de vida às boas recordações do seu acervo. E, felizmente, nesse caso o legado deixado faz jus a expectativa criada e deixa no ar a sensação gostosa, como a de revisitar um velho amigo.

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Wikerson Landim - wikerson@portaldecinema.com.br
Publicado em: 15/12/2010
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