Tony Ramos, Dan Stulbach, Daniel Filho, Louise Cardoso, Aílton Graça, Anselmo Vasconcelos, Ewa Maria Parszewska, Pablo Sanábio, Alexandre Bordalo, Nilvan Santos, Bernardo Jablonski, Zezé D'Alice, Maria Maya, Leonardo Tierre, Marcos Flaksman, Felipe Martins, Ricardo Marecos, Breno de Filippo, Carlos Henrique Case, Camila Lins, Liliane Mija, Átila Balazs Szemeredi e Ion Muresanu. |
Confesso que não sou nenhum fã ou simpatizante do trabalho de Daniel Filho nos cinemas. Embora não reste dúvidas do seu poder em dialogar com a platéia, comandando filmes bem sucedidos nas bilheterias como é o caso do recente Se Eu Fosse Você 2, sua cinematografia carece de aspectos mais autorais, sendo a linguagem que utiliza muito próxima a da televisão.
Por isso, é ao mesmo surpreendente e animador vê-lo envolvido em uma produção como Tempos de Paz, uma adaptação de uma peça teatral de destaque no cenário brasileiro e, embora estrelada por atores “globais”, como Tony Ramos e Dan Stulbach, longe de ser apontada como mais uma empreitada meramente caça-níqueis.
A surpresa já surge durante os créditos iniciais, numa bela montagem de cenas documentais do período da Segunda Guerra Mundial que, extremamente bem feita em poucos segundos já serve perfeitamente como ambientação do drama que irá se desenrolar.
Já são tempos de paz. A Segunda Guerra Mundial está chegando ao fim, mas por alguns aspectos técnicos, no Brasil a ordem de revistar todos aqueles estrangeiros que chegassem em solo brasileiro ainda estava de pé. Segismundo (Tony Ramos) é um frio inspetor alfandegário, responsável por, entre outras coisas, entrevistas pessoalmente alguns dos recém-chegados. Entre eles está Clausewitz (Dan Stulbach), um culto imigrante polonês que deseja ficar por aqui e trabalhar como agricultor.
Com roteiro de Bosco Brasil, o próprio autor da peça teatral que deu origem ao filme, todo o seu desenrolar praticamente resume-se a um diálogo entre Segismundo e Clausewitz em que o imigrante tenta a todo custo provar para o inspetor que não é um simpatizante do governo de Adolph Hitler. Numa espécie de “teatro filmado”, pouco se percebe a mão do diretor Daniel Filho na produção, salvo apenas alguns raros momentos em que se vê um olhar de câmera mais apurado, em detalhes simbólicos e planos que acrescentam algo a linguagem do autor.
Mas, se há algum mérito que mereça destaque maior em toda a produção, essa honraria reside principalmente na própria história construída por Bosco Brasil originalmente para sua peça Novas Diretrizes em Tempos de Paz. Mais do que colocar duas ideologias díspares em conflito, sua abordagem é uma verdadeira homenagem ao ator de teatro e à função da arte em si de proporcionar um significado para o ser humano ainda que este significado seja o mais singelo possível, como fazer alguém olhar para dentro de si ou derramar uma lágrima. Com um diálogo rico, transportado para o cinema de modo a não parecer tão teatral, sua adaptação funciona bem nas pouco mais de 1h20 de filme.
Com o foco da história centrado no diálogo entre dois personagens, é natural que as atenções recaiam sobre seus atores principais. E aqui, outra surpresa. Embora o experiente Tony Ramos crie um personagem convincente e intimidador, sua atuação em muitos momentos, como ao contar passagens de sua vida com torturas que teve que comandar, se perde para um aspecto teatral que soa falso e pouco convincente, afinal atuar teatralmente, em especial no seu papel, por si só já é uma forma contraditória – Segismundo não acredita na utilidade do teatro.
Por outro lado o jovem e talentoso Dan Stulbach, se sai muito bem ao manter o sotaque do imigrante que recém aprendeu a língua portuguesa, atuando com naturalidade em todas as cenas cotidianas e esbanjando teatralidade nas seqüências em que a representação se faz necessária. Tanto em uma quanto em outra, consegue fazer rir ou emocionar, mantendo o timing perfeito entre o cômico e o trágico. Stulbach protagoniza uma atuação como poucos atores conseguiriam e, em muito, acrescenta para o bom desempenho do filme.
Assim como a ambientação inicial é muito bem feita, da mesma forma a construção dos poucos cenários apresentados bem como os detalhes de época – o filme se passa em 1945 – são reconstituídos com um apuro técnico exemplar, convencendo e contribuindo para o desenvolvimento da história. Aliás, por falar em história, um outro feliz aspecto da produção é digno de nota. Antes dos créditos finais, há um sequência em que são exibidas algumas fotos antigas de profissionais imigrantes que trabalharam pelo teatro brasileiro. Uma homenagem justa e bastante pertinente em uma produção que além de exaltar a importância do teatro, coloca os valores do ser humano em primeiro plano.
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