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::.. TAPETE VERMELHO ..::
::.. Sinopse ..::
Um homem parte em viagem com sua esposa e filho para cumprir uma promessa: mostrar ao garoto um filme de Mazzaropi em uma sala de cinema.
::.. Ficha Técnica ..::
Título Original: Tapete Vermelho.
Origem:
Brasil, 2006.
Direção:
Luiz Alberto Pereira.
Roteiro:
Luiz Alberto Pereira e Rosa Nepomuceno.
Produção:
Ivan Teixeira e Vicente Miceli.
Fotografia:
Uli Burtin.
Edição:
Júnior Carone.
Música:
Renato Teixeira.
::.. Elenco ..::
Matheus Nachtergaele, Vinícius Miranda, Gorete Milagres, Rosi Campos, Aílton Graça, Jackson Antunes, Paulo Betti, Débora Duboc, Paulo Goulart, Cássia Kiss, Cacá Rosset, Yassir Chediak, Fernanda Ventura, Manoel Messias, André Ceccato, Martha Meola, Cacá Amaral, Cid Maomé, Delmon Canuto, Duda Mamberti, José Antônio Nogueira, Zé Mulato e Cassiano.
::.. Site Oficial ..::
http://www.filmetapetevermelho.com.br
::.. Premiações ..::
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::.. Saiba mais ..::
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::.. Crítica ..::
O cinema nacional deve muito ao sertanejo. Grande parte das produções brasileiras das décadas de 60, 70 e 80 que se tornaram sucesso de bilheteria tinham o sertanejo como temática ou então ídolos da cultura local, como Sergio Reis e as duplas Milionário e José Rico e Tonico e Tinoco.

Mas, sem dúvida, ninguém incorporou melhor o espírito caipira do que Amâncio Mazzaropi. Em um mercado cinematográfico frágil, com produções carentes de bilheteria e distribuição, produziu e atuou em mais de 30 filmes. Sempre retratando a pureza do homem do campo – o jeca tatu, sua maior expressão – levou mais de 20 milhões de espectadores aos cinemas ao longo de sua carreira. Mais do que justo que um cineasta como ele recebesse uma justa homenagem.

Tapete Vermelho poderia ser uma boa oportunidade. Poderia. Os elementos para o resgate foram reencontrados. A beleza das paisagens do interior brasileiro, em especial o interior paulista, a ótima trilha sonora, uma produção de qualidade e um dos melhores atores brasileiros da atualidade - Matheus Nachtergaele. Então, o que há de errado?

Mazzaropi foi um gênio. Sua caricaturização do caipira era autêntica, original. Nachtergaele compõe seu personagem de maneira correta. Porém exagera, até parecer demasiado forçado em algumas cenas. O que é uma pena, pois certamente era essa a intenção, o estereótipo.

O roteiro parte de uma premissa inteligente. O caipira que irá fazer de tudo para cumprir uma promessa a seu filho e levá-lo para ver um filme de Mazzaropi no cinema. Mas a maneira como a história se desenvolve parece um tanto apressada. Ou melhor, forçada. Em meio a esquetes inteligentes, os fatos acontecem repentinamente, sem muita lógica ou rodeios, para que a história possa caminhar. Nem sempre de maneira convincente. Rosa Maria Nepomuceno, uma das autoras, tem um trabalho brilhante no resgate da cultura sertaneja. E demonstra isso na ambientação da história. Mas seus méritos param por aí. Os diálogos parecem frágeis e a condução da história em seus pontos de virada apressada.

Aliás, essa pressa é nítida na fala e em alguns planos dos atores, que não convencem e parecem não ter se preparado (ou terem tido o tempo necessário) para compor seus papéis (a cena do pescador que mantém um diálogo com Matheus e seu filho é um exemplo).

A maneira como o campo mudou nessas últimas décadas é mais um bom motivo para se ver o filme. Ela está presente, em diversos detalhes, ao longo do filme. Mais aí surge um novo problema. A abordagem sobre a reforma agrária, através do MST é válida. Mas, novamente, forçada e deslocada. O filme não decola justamente por não se decidir em ser crítico ou ser caricato. Tenta fazer os dois e acaba por não fazer bem nem um nem outro.

Gorete Milagres é uma exceção e conduz seu personagem – a esposa de Quinzinho – com muita segurança, na medida certa, como faz com seu principal sucesso, a Filomena, que a revelou como grande humorista na televisão.

A intenção de Tapete Vermelho era ótima. O resultado, nem tanto. Mazzaropi merecia coisa melhor. E como Quinzinho, também queremos ver os filmes do verdadeiro Mazzaropi no cinema. E não precisa nem de tapete vermelho.
Quando menos se espera, o sertão aparece. Esquecido, escamoteado, disfarçado, o sertão é um segredo. O oculto, a causa, o que está fora ou o sagrado. Quando sua perda se oficializa, o sertão que é a arte, o camponês, a paisagem, é que o descobrimos. O cinema nacional caipira enfrentou durante décadas uma crítica ferrenha e sobreviveu, por uma comunicabilidade mágica com seu povo pouco letrado.

Como seu povo atravessaria também a malha pós-mágica, letrando-se, aquele aprendeu a não se ruborizar,aprimorando sua técnica ,subordinando-se a uma linguagem cinematográfica, diante de intelectos. O que talvez não esteja claro ainda é que para ver cinema, precisamos não raras vezes desarmarmo-nos do arsenal do saber, botar os pés no chão do primitivo, voltar ao rancho fincado na terra do sem começo e do sem fim. Esta abstração, pré-requisito, para toda apreciação artística é o significante que não pergunta o que, mas o como.

Desde “Lá no meu Sertão” com Tonico e Tinoco, passando por Mazaropi, Teixeirinha, Sérgio Reis, o desejo é um só: criar uma arte cabocla através do cinema. A criação, contudo, passa por três estágios: Envolvimento, Achado e Demonstração. De um modo geral, quem fez cinema sertanejo eram pessoas envolvidas com o regional, estando o achado no próprio ato de tornar visível o seu mundo. A demonstração que exigia técnica diante dos olhos da crítica seria falha, também pelo grau de exigência de quem vê pelo saber. Visto por essa ótica e estritamente por ela, os “intelectuais” que não se compenetravam de que vemos e um mundo e falamos em outro, jamais se deram a chance de ver pelo significante, ou seja, sentir.

A desmagicização da terra tornou-a plana e linear. Rompeu com suas particularidades, suas crenças e relevos, baniu o saber local, quebrado, e circular,inseriu-a no mapa como área fria e econômica. O sertão, contudo, não sucumbe. Quem não veio da terra? A dor da saudade quem é que não sente? Uma Marvada Carne, Dois Filhos de Francisco e um Tapete Vermelho são elos De uma corrente estilística, de uma estética do coração. Na terra, assim como na tela.

Há um Tapete vermelho estendido pelo Brasil, para o sertão passar, mas quem se ruboriza é o povo, diante do regional, do particular, do detalhe, do gimmick que vem à tona . Acanha-se porque inserido no olhar econômico, permeado de ironia, desconhece de onde brota a lavoura. Não se lembra mais que árvore não nasce da cibernética, que riacho não verte da mídia, ou que a realidade-traço, tornou-se inverossímil diante da falta de consenso. A arte é e será sempre, cabocla, primitiva, desavisada, ingênua. Rápida, inteligente, contemporânea é a comunicação, uma questão midiática contra uma mediunidade. Resta ao sertão acorrentar-se nas colunas do gigante contenporâneo, caso isto gere audiência, para resgatar o olhar coletivo eclipsado e reintegrar ao valor do regional, da forma, do particular. Exprimindo o gênio de um lugar cristalizado, através da particularidade da luz, das cores, dos tons e relevos, toda arte assim como a espiritualidade é local. A pictruralidade recolocada no atual cumpre uma profecia: “O sertão vai virar mídia”.
Belmiro Santos - contato@belmirosantos.com