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::.. LULA - O FILHO DO BRASIL ..::
::.. Sinopse ..::
A vida do presidente Luis Inácio Lula da Silva desde a sua infância, passando pela morte da mãe e pelo período no qual esteve preso por liderar manifestações ilegais em São Paulo.
::.. Ficha Técnica ..::
Título Original: Lula - O Filho do Brasil.
Origem:
Brasil, 2010.
Direção:
Fabio Barreto.
Roteiro:
Daniel Tendler, Fernando Bonassi e Denise Paraná, baseado em livro de Denise Paraná.
Produção:
Paula Barreto e Rômulo Marinho Jr.
Fotografia:
Gustavo Hadba.
Edição:
Leticia Giffoni.
Música:
Antonio Pinto e Jacques Morelembaum.
::.. Elenco ..::
Rui Ricardo Diaz, Glória Pires, Cleo Pires, Milhem Cortaz, Juliana Baroni, Lucélia Santos, Antônio Pitanga, Celso Frateschi, Marcos Cesana, Sóstenes Vidal, Antonio Saboia, Clayton Mariano, Eduardo Acaiabe, Marat Descartes, Nei Piacentini, Felipe Falanga, Guilherme Tortolio, Luccas Papp, Vanessa Bizarro, Maicon Gouveia, Fernando Alvez Pinto, Rayana Carvalho, Jonas Melo, Mariah Teixeira e Fernanda Laranjeira.
::.. Site Oficial ..::
http://www.lulaofilhodobrasil.com.br/
::.. Premiações ..::
-
::.. Saiba mais ..::
O orçamento de Lula - O Filho do Brasil foi de R$ 12 milhões.

Lula - O Filho do Brasil
foi produzido sem a utilização de leis de incentivo municipal, estadual ou federal.
::.. Trailer ..::
::.. Crítica ..::

Antes de analisar o filme Lula – O Filho do Brasil é preciso deixar claro algumas coisas. Obviamente os simpatizantes da política do atual presidente vão defendê-lo com unhas e dentes. Da mesma forma os oposicionistas vão atacá-lo com a mesma veemência. Nada disso importa. O que de fato pretendo analisar aqui é o filme em si e não a trajetória política do seu personagem principal. Assim, entrei na sala de cinema desarmado, sem nenhuma idéia pré-concebida do que veria pela frente. Por isso, antes que me acusem de ser simpatizante de um lado ou de outro estejam certos de que meu texto seria exatamente se o filme fosse Fernando – O Filho do Brasil ou José – O Filho do Brasil.

Dito isso, considero justificável a existência de um filme como esse. O fato é que Luiz Inácio Lula da Silva é o Presidente da República e é muito mais aceitável a produção de uma obra sobre alguém que ocupa o cargo mais importante do país do que sobre uma garota de programa que escreveu um livro ou um personagem fictício qualquer. A utilização que se fará dele, aí sim, é algo perigoso e que merece ser levado em consideração.

Embora não seja partidário de Lula, sua história, amplamente divulgada pela mídia, de um retirante nordestino pobre que ao longo de sua trajetória de vida é eleito presidente do Brasil é, em termos cinematográficos, um prato cheio. Com sua biografia é possível montar, sem nenhuma dificuldade, um roteiro que compreenda a estrutura padrão com todos os arcos dramáticos de uma história, desde as adversidades iniciais até a conseqüente transformação e superação no final da projeção.

Porém, há maneiras e maneiras de se contar uma história. E, infelizmente, a maneira escolhida pelo diretor Fábio Barreto (O Quatrilho) é uma das mais óbvias e maniqueístas possíveis, não em termos de alteração da história ou exibição de elementos inverídicos, mas pelo fato de em todos os momentos de clímax induzir o espectador à emoção ou a sensações que, talvez sem a sua interferência, não seriam transmitidas pela história.

Assim enquanto Lula, sua mãe e seus irmãos partem em um caminhão – o conhecido pau de arara – ouvimos uma trilha sonora com violinos, especialmente composta para criar um clima de piedade perante a um cenário repleto de dificuldades. Pequenas referências como “o caminhão da felicidade está partindo” contribuem para que, nos momentos em que a história não é suficiente para levar o espectador às lágrimas, o fato aconteça. Não estranhe se, com muita naturalidade, em pouco mais de cinco minutos de filme você já se sinta “identificado” com o personagem principal, algo naturalmente deveria ocorrer, nesse caso, mais à frente.

A figura de Aristides (Milhem Cortaz), o pai de Lula, surge demonizada e execrável, tornando-se o seu primeiro grande adversário. Uma câmera tremida e agitada torna a sua figura ainda mais deplorável nas vezes em que se dedica a bater nos filhos afirmando que “filho meu tem que trabalhar, e não estudar”. Embora a figura da mãe de Lula, Dona Lindu (Gloria Pires) seja o centro principal da trama nesse momento, sendo a responsável direta pela formação do caráter do jovem, suas ações servem apenas como coadjuvante para que o personagem principal consiga reforçar o seu sucesso.

Não há dúvidas que o espectador irá se identificar com momentos como o primeiro diploma, o primeiro emprego, a conquista do sonho da casa própria ou o momento da conquista da primeira namorada. Fatos como esse são parte da vida de qualquer pessoa e, obviamente, quando os vemos pelos olhos de outra pessoa é natural que a reação seja de alegria ou de emoção. E, repare, que em todos os momentos a belíssima trilha com violinos está lá pontuando todas essas conquistas.

Numa emoção que poderia ser verdadeira, mas nos soa manipulada, temos aqui sim mensagens maniqueístas de associando Lula à casa própria, ao primeiro emprego ou a conquista de um diploma. Note que a exibição destes momentos é indispensável à história. O aspecto apelativo aqui fica por conta da maneira como a coisa é exibida, num tom dramático propositalmente exacerbado.

Num comparativo direto de outro filme nacional que segue a mesma linha podemos citar o ótimo 2 Filhos de Francisco como referência. Enquanto o filme que conta a história da dupla Zezé di Camargo & Luciano evita a trilha sonora manipulada – ainda que pudesse fazer uso dela com mais frequência por se tratar de uma dupla musical – e opta por colocar o foco sobre quem realmente tem papel importante na história – no caso Francisco, o pai dos irmãos cantores – em Lula – O Filho do Brasil a aposta é centrar o foco no personagem principal, tornando-o uma espécie de escolhido e fazendo com que o espectador sinta aquela sensação de “tudo é possível”. Sinceramente, um título como O Filho de Dona Lindu seria uma opção muito mais honesta para a produção.

A partir da evolução de Lula como líder sindical, o diretor Fabio Barreto faz uma opção acertada em mesclar imagens documentais da época com cenas gravadas na atualidade. Essa mistura proporciona mais verossimilhança e dinamismo, em especial nas sequências onde as grandes greves do final da década de 70 e início da década de 80 no ABC paulista serviam não só como um embate sindical, mas como um grito de liberdade em meio a ditadura que assolava o país.

Vale a menção: após a chapa composta por Lula ser eleita pela primeira vez para a presidência do sindicato dos metalúrgicos, surge um momento de merchandising constrangedor para o filme: Durante a comemoração pela vitória em um bar, Cláudio Feitosa (Marcos Cesana), presidente eleito do Sindicato vira para a câmera e dispara um “vamos beber porque aqui só tem brahmeiro”, numa referência direta ao atual comercial da cerveja Brahma, uma das patrocinadoras do filme.

O grande momento do filme talvez fique por conta da atuação de Rui Ricardo Diaz no papel principal. Em uma sequência onde Lula faz o seu primeiro discurso como membro do sindicato são impressionantes a semelhança dos aspectos gestuais, da fala e mesmo dos traços do ator com a figura de Luiz Inácio à época dos fatos. Retratar um personagem que é parte do dia a dia do público é uma tarefa difícil, por justamente ser difícil diferenciar ficção e realidade. Nesse caso, sua atuação força-nos a acreditar da maneira mais convincente possível que ele é de fato quem interpreta. Sua atuação de estréia é digna de grandes atores e, a seguir por este caminho, sem dúvida estamos diante de uma grande promessa para futuras obras.

Apesar das suas falhas e da maneira maniqueísta como conduz a história é bem provável que o filme faça sucesso e ganhe a simpatia por parte do público. E é justamente esse o ponto mais preocupante: o que será feito do filme depois de lançado. Como sabemos não é a maioria das pessoas que têm aptidão para analisar ou refletir acerca de detalhes de uma obra visual. E, infelizmente, também não é maioria o grupo daqueles que têm acesso à críticas cinematográficas ou textos que se proponham a analisar, com enfoque menor nos aspetos políticos, o filme em questão.

Assim, certamente, muitos tomarão como verdade absoluta e inquestionável cada momento exibido na projeção. E, sim, associarão a figura de Lula a momentos como a conquista da casa própria, ao primeiro emprego ou ao diploma educacional conquistado a duras penas. Como disse anteriormente, o que é exibido na projeção é verdadeiro e de fato aconteceu. Mas a maneira como é exibido induz a dramatização em momentos que, não necessariamente, seriam tão doces ou amargos como pareceram. E isso faz toda a diferença entre criar uma obra que conte parte importante da história do país ou criar uma obra que se torne peça-chave numa próxima eleição.

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Wikerson Landim - wikerson@portaldecinema.com.br
::.. Entrevista com o diretor Fábio Barreto ..::
Lula, o Filho do Brasil partiu de uma provocação de Luiz Carlos Barreto, que leu o livro de Denise Paraná e se apaixonou. Qual foi sua primeira reação?
Não só aceitei no ato como entrei no processo de peito aberto. Sabia que seria um filme de alto risco, que exigiu muita coragem de todos os envolvidos, mas conseguimos manter a motivação inicial: contar a história não conhecida do Presidente Lula com base no livro da Denise Paraná. Para mim, contar essa história era também a possibilidade de fazer um filme sobre o povo brasileiro. Conheço bem o Brasil, aliás, acho que conheço o Brasil inteiro. Também já viajei muito pelo exterior, e sei que o brasileiro tem peculiaridades únicas: ele é teimoso, corajoso, tenaz, solidário, lutador, generoso. O filme foi também a oportunidade de falar de um povo injustamente criticado por muita gente. E havia uma razão pessoal: meu pai, como Lula, é um nordestino que veio para o Sudeste e venceu. De certa forma, este filme é também a história da vida dele.

Como você define Lula, o Filho do Brasil?
Como um filme sobre um homem comum, um brasileiro que sai do nada, e chega ao cargo mais importante do país. É também um filme sobre a relação entre este homem e sua mãe, uma mulher simples, analfabeta, que lutou para criar oito filhos e preservar a família unida – e conseguiu. Esta família, por sua vez, faz parte do maior movimento migratório interno do mundo, que levou 35 milhões de nordestinos a deixarem suas terras em busca de uma vida melhor. O percurso de Lula começa no sertão, vai para Santos nos anos 50 e chega à periferia de São Paulo nos anos 60, quando se consolida a criação do maior parque industrial da América Latina. Em meados dos anos 70, Lula passa a atuar no sindicato do ABC. O resto é História.

O filme termina em 1980, com a morte de Dona Lindu, antes da criação do PT. Por que não falar da atuação política de Lula?
Porque todo mundo conhece a vida política de Lula, mas poucos conhecem sua vida pessoal – e era esse o nosso foco e o nosso interesse. A trajetória do Lula é marcada por muitas datas emblemáticas – nasceu no final da Segunda Guerra, a família abandona o pai em 1954, data da morte de Getúlio, ele perde o dedo em 64, ano do golpe militar, e o pai morre quando se decreta anistia. Em 80 ele inicia a carreira política. Continuar a história seria jogar o filme na política, com a fundação do PT, uma história que todo mundo sabe. Lula é um personagem fantástico, sobretudo pela extrema capacidade de superação. Sua vida foi marcada por dois fatos cruciais: a ausência e depois o confronto com um pai violento, que achava que “pobre não devia estudar, mas trabalhar”, e depois, a morte da primeira esposa no parto, juntamente com o filho. Esta perda provocou uma catarse na vida de Lula, que aprofundou seu engajamento no movimento sindical, desandou a falar e não parou mais, descobriu uma liderança que não conhecia, e que mudou a sua vida e a vida do país. O principal motor de sua trajetória foi a atuação sindical, onde aquele homem barbudo comandou, com palavras, um exército de operários.

Qual o maior desafio de fazer um filme que narra a história do Presidente da República?
A margem de erro era grande, pois o filme fala de fatos e pessoas reais que existem e que têm notoriedade. É difícil e foi preciso muita coragem para fazer esse filme. Desde o início, eu sabia que minha maior limitação seria o medo, a insegurança. Fui destemido, mas contei com uma ótima equipe, em todas as etapas, com um elenco excelente e uma produção impecável. Durante a preparação, li um discurso do Lula em que ele dizia: “acredite em vocês que vocês vão chegar aonde quiserem”, palavras que adotei como lema durante as filmagens. Se um diretor consegue vencer a insegurança, enfrenta qualquer coisa. Ninguém filma em São Paulo impunemente, ainda mais no ABC, certamente o lugar em que mais chove e cai raio do mundo (risos). A única pessoa que me faria filmar em São Paulo seria Lula.

Lula é interpretado por Rui Ricardo Diaz, estreando no cinema. Você queria um rosto desconhecido para interpretar um personagem super-conhecido?
Não necessariamente. Pensamos em João Miguel, que apesar de muito elogiado, não é tão conhecido, que estava com problemas de agenda. Pensamos em Wagner Moura, que estava fazendo Hamlet. Dificilmente um ator consagrado aceitaria o desafio – se desse errado, ficaria marcado para sempre. Optamos por Tay Lopez, que não era muito conhecido (fez o pastor em Última Parada 174) e sua saída, por motivos de saúde, a dois meses do início das filmagens, foi um baque. Rui Ricardo fez um teste para o papel de enfermeiro e quando vi, mandei chamá-lo imediatamente. Em nosso primeiro encontro, falamos pouco, mas fui muito claro e disse: “Não quero imitação, não quero caricatura, quero pegada”. Seu teste foi fazer um discurso sentado sozinho no meio do estúdio. Ele foi valente – não se intimidou. Levou o papel. Apesar de ser um estreante em cinema, Rui Ricardo revelou uma grande força, uma aura impressionante. Hoje estou certo de que tudo aconteceu da forma certa e na hora certa: digo que Rui foi um enviado de Deus e de Dona Lindu – duvido que algum ator se saísse melhor.

Você diz que não queria uma imitação de Lula. Como foi a preparação de Rui Ricardo para o papel?
Um ator não pode se submeter ao personagem – ele deve interpretar, representar, com a superação e as limitações que isso implica. Não queria uma imitação. Conheço as caricaturas de Lula – do gestual à língua presa. O importante era a pegada emocional, o carisma, a força, a intensidade de suas relações, a começar pela mãe.

E como foi a interação, a química entre um estreante e Glória Pires, uma atriz experiente como Dona Lindu, e com quem você já havia trabalhado em Índia, a Filha do Sol e O Quatrilho?

Essa química passou por questões muito interessantes. Em uma ponta estava um estreante que tinha pela frente um personagem que é um mito, com um mar de referências, conhecido por todos e que faria qualquer ator tremer. Na outra ponta, estava uma atriz experiente que iria interpretar uma personagem sobre a qual quase não havia referência visual. Glória construiu Dona Lindu do nada, a partir de conversas com filhos, amigos e parentes. Nesta construção, uma fonte importante foi Marinete, a filha mais velha com quem fez uma gravação de 50 minutos através do skype, pois estava em Paris, e à qual ficava assistindo como se fosse uma aula. Glória conversou uma vez com Lula, participou de um almoço de família, assim como Rui Ricardo. A Glória é muito econômica, tem um aspecto mediúnico, parece muito forte, mas na verdade lida muito com a fragilidade. Ela tem um lado muito espiritualizado e generoso. Apesar das diferenças de estrada, a química e a relação entre os dois foi excelente, e muito ajudada pela orientação de Sergio Penna.

Pela primeira vez você trabalhou com um preparador de elenco?
Em A Paixão de Jacobina, trabalhei com uma preparadora alemã e Dora Pelegrino, mas agora acho que todo diretor deveria ter um diretor de elenco e mais: este diretor deve ser o Sergio Penna, mesmo que o filme tenha apenas dois atores em um apartamento. Um diretor lida com muitas áreas, demandas e problemas, e certamente não dispõe do tempo que um elenco precisa. Todas as orientações dadas aos atores foram estabelecidas comigo, em um trabalho de grande cumplicidade.

Você começou as filmagens pelo Nordeste, na região em que Lula nasceu. Como foi a experiência?
Muito rica, mas muito trabalhosa, sobretudo com o elenco infantil e adolescente. Fizemos questão de filmar o mais próximo possível dos lugares em que as coisas aconteceram, e de um modo geral, tudo continua muito parecido, mesmo 45 anos depois. E ocorreram fatos muito curiosos. Na região, todo mundo conhece a história daquela família, e há várias famílias como aquela. As pessoas se aproximavam, contavam casos, queriam colaborar de alguma forma até porque todo mundo quer ver aquela história no cinema. As pessoas largavam tudo para participar, embarcavam como se fosse a própria vida delas. É o mesmo processo que acontece com o espectador quando entra no cinema e quer se ver, se identificar, se emocionar.

Como diretor, você se sentiu tolhido em sua liberdade de criação ao abordar a trajetória de um personagem tão conhecido?
Em qualquer filme, problemas de produção podem limitar a chamada liberdade criativa. Neste filme, com uma produção de porte, existiu todo um trabalho prévio que evitou deixar cair bombas do tipo “não tem isso”, “não pode aquilo”, que também cerceiam o diretor. Felizmente, nada disso aconteceu. Por outro lado, a base do filme é o livro, fundamentado em fatos reais, mas não posso garantir que esses tenham acontecido exatamente da maneira que estão na tela. Neste sentido, o filme é todo uma recriação. Apesar desta sólida base real, trabalhei com a maior liberdade, acompanhei o roteiro de perto, escrito pelo meu genro Daniel que desenvolveu a estrutura com Denise Paraná, autora do livro. Na fase final chamamos Fernando Bonassi, que teve experiência de operário e cresceu no ABC e que deu contribuições essenciais, sobretudo na última parte do filme, que aborda o movimento sindical.

O que Lula, o Filho do Brasil representa na sua trajetória? Você fez filmes bem diversificados, em várias regiões do Brasil.
Quando faço um filme quero que ele me transforme, me modifique, me faça crescer. Fiz principalmente filmes de época e em regiões de atividade agropastoril. Comecei com Índia, a Filha do Sol (filmado no Araguaia, Goiás), uma estréia maravilhosa. Depois veio O Rei do Rio, meu único filme urbano, que eu pretendia que fosse o meu D. Flor e tomei o maior pau. Passei dez anos em crise, fiz Luzia Homem (no sertão do Canindé, Ceará) e TV até chegar a O Quatrilho (interior do Rio Grande do Sul) e me deslumbrei: agora é Hollywood, o topo da colina. Não foi bem assim. Seguiu-se uma nova crise de dez anos – que incluiu Bela Donna (litoral do Ceará), A Paixão de Jacobina, Nossa Senhora de Caravaggio (novamente no Rio Grande do Sul), a série para TV Desperate Housewives. Fui salvo por Lula. Independentemente do que acontecer, o filme já me tirou da última crise. Crise é igual a crescimento, mas não quero outra – o processo de fazer Lula já foi salvador, fiz o filme com extremo prazer.

Você esteve com o Presidente Lula antes das filmagens?
Estive com Lula uma vez, três dias antes do início das filmagens e levei o roteiro. A posição dele foi: não quero saber. Tive total carta branca. Ele tem pudor, e adotou uma postura de não interferir – enquanto muita gente achava que aconteceria o contrário. Ele gosta de conversar, contar histórias e vai assistir ao filme pela primeira vez sozinho, uma forma de se preparar para a exibição em público.

E você, está preparado para as cobranças?
Pois é, como em jogo de futebol, no caso do Lula, todos se transformam em técnicos, especialistas no assunto, de uma maneira ou outra. A história de Lula é muito mais cheia de incidentes do que está na tela, e muita coisa foi atenuada, como a violência do pai, ou a violência da avó, uma rendeira que expulsava os netos que iam pegar melancia em seu quintal a tiros. Sem falar que no velório da mulher e do filho, houve uma enchente, o piso cedeu e a casa desabou. A cena foi filmada, mas não colocamos. Se o filme fosse contar a história toda, ninguém agüentaria. Não tenho medo de cobranças. Sei que vou ter todas – não vai faltar nenhuma, a começar pela família, passando por questionamentos do filme ser lançado em ano eleitoral e atuar como peça de propaganda.

Mas o filme pode contribuir para a campanha eleitoral de 2010?
Lula não precisa do filme. Nós é que estamos tirando uma casquinha da popularidade do Presidente. Com seu índice de popularidade, ele não precisa do filme, mas o cinema brasileiro precisa de um filme com um personagem como Lula.

O filme vai contribuir para entender o Lula?
O filme não foi feito para entender o Lula – mas para as pessoas verem que mesmo nas piores condições é possível chegar aonde ele chegou. Ele é um migrante nordestino, um ex-operário, e o principal bem que fez ao país foi o aumento da auto-estima, como se dissesse o tempo todo “Se eu estou aqui, você também pode estar. Eu sou igual a você, nós somos iguais. Eu estou aqui porque eu teimei muito. Não fiquem aí reclamando da vida”.
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É um filme bem feito com boa sonorização e boa técnica, também nos mostra a capacidade de um semianalfabeto disposto a vencer na vida, apesar das dificuldades de um país subdesenvolvido até 2002.
José Luiz Pereira Santos
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