Leonardo DiCaprio, Mark Ruffalo, Ben Kingsley, Max von Sydow, Michelle Williams, Emily Mortimer, Patricia Clarkson, Jackie Earle Haley, Ted Levine, John Carroll Lynch, Elias Koteas, Robin Bartlett, Christopher Denham, Nellie Sciutto, Joseph Sikora, Curtiss Cook, Raymond Anthony Thomas, Joseph McKenna, Ruby Jerins, Tom Kemp, Bates Wilder, Lars Gerhard, Matthew Cowles, Jill Larson, Ziad Akl, Dennis Lynch, John Porell, Drew Beasley, Joseph P. Reidy, Bree Elrod, Thomas B. Duffy, Ken Cheeseman, Steve Witting, Michael E. Chapman, Keith Fluker, Darryl Wooten, Michael Byron, Gary Galone, Gabriel Hansen, Guy A. Grundy e Dan Marshall. |
Segundo a psicologia, a loucura é uma condição da mente humana caracterizada quando um indivíduo tem pensamentos considerados “anormais” pela sociedade. Funcionando como instituições coercitivas, por muitos anos os hospitais psiquiátricos funcionaram como uma espécie de depósito de “indivíduos problemáticos”, que ficavam à mercê de cuidados duvidosos e tratamentos violentos, ocasionando muitas vezes em quadros ainda piores.
Falar de pensamentos anormais é algo extremamente complicado. Se não há nenhum ser humano igual a outro, exigir que todos compactuem de uma mesma mentalidade coletivamente não só seria extremamente chato como também abriria o caminho para ditaduras e fanatismos. Mas essa seara já é outra história. A menção válida a anormalidade que serve como um interessante paralelo em Ilha do Medo é a maneira como a trama é apresentada.
O trailer da produção Ilha do Medo dirigida por Martin Scorsese é bastante revelador. Nele vemos um detetive do FBI chegando a uma ilha para investigar um suposto desaparecimento. Em seguida vemos o personagem indo em busca de pistas, se deparando com algumas confrontações, vivendo ilusões e sendo ameaçado de nunca mais poder deixar o lugar. Presumo que, com essas informações, já seja mais do que suficientemente possível prever o início o meio e o fim da história. A grande pergunta é: como ela acontece?
Criar um clima de tensão iminente, apresentar uma série de pistas ao longo da trama, confrontá-las e subverter a expectativa a cada nova sequência são apenas alguns dos elementos muito bem trabalhados pelo diretor na produção. A soma de todos eles é a grande responsável pelo fato de sermos apresentados a uma história, que já conhecemos o provável final, e ainda assim somos arrebatados a ficar diante da tela até o último segundo para confirmar nossas suposições.
Com um visual típico do cinema noir, numa ambientação da década de 50 com bons trabalhos de figurino e direção de arte, o primeiro elemento a se destacar em Ilha do Medo é a trilha sonora. Nos primeiros minutos da produção ela é incisiva, alta e contínua. Seu tom denuncia algo extremamente perigoso e que coincide com a entrada de Teddy Daniels (Leonardo Di Caprio) e seu parceiro Chuck Aule (Mark Ruffalo) no Hospital Psiquiátrico Ashecliffe. A trilha se repete em outros momentos do filme, mas em nenhum um outro tão forte quanto no início, numa bela construção que nos mostra que o maior dos temores é estar dentro daquele complexo.
Lançado pistas a todo momento de maneira clara, Scorsese pontua a trama de uma maneira em que o passo seguinte sempre parece ser óbvio. No entanto, ainda assim, essa obviedade funciona como o melhor dos escamoteamentos para o verdadeiro atrativo da história: como esse processo se desenvolve. Aos poucos, a mesmas pistas óbvias e que se mostram verdadeiras começam a ser subvertidas e passamos a questionar o que temos certeza de ter visto. O que é verdadeiramente apresentado, e tomado como verdade pelo espectador, é colocado à prova com outra verdade possível. Assim, da mesma forma que há uma linha tênue entre a loucura (ou o que é considerado loucura) e a sensatez (ou o que a sociedade considera como sensatez), as verdades absolutas e as verdades possíveis se confundem, proporcionando ao espectador bons momentos de reflexão sobre a trama e também sobre o tema.
Outro elemento importante no cenário construído por Scorsese é a junção de fragmentos de sonhos para justificar elementos de transformação. Todos eles são apresentados com uma fotografia diferenciada, muita mais vívida em relação à realidade, ora destacando todo um ambiente, como a sequencia da casa de Teddy em chamas, ora tendo como foco apenas um elemento cênico, como nas sequências que apresentam Teddy em ação durante a Segunda Guerra Mundial.
Tendo estrelado diversas produções de Scorsese ao longo dos últimos anos, é notável a evolução de Leonardo Di Caprio como ator. Traçando um paralelo, há dez anos o ator participava do fraco filme A Praia, onde em muitos momentos precisava demonstrar em sua atuação mudanças ou distúrbios em sua personalidade. No filme dirigido por Danny Boyle o resultado era uma figura caricata e pouco interessante. Em Ilha do Medo, Di Caprio conduz uma transformação equilibrada do personagem, muito mais verossímil e competente, prova que os três trabalhos anteriores que realizou com o diretor - Gangues de Nova York, O Aviador e Os Infiltrados - tiveram uma ótima influência em seu desempenho.
Numa filmografia tão rica, dizer que Ilha do Medo está entre os melhores trabalhos de Martin Scorsese talvez não seja um elogio demasiado. No entanto, para um diretor que tem no currículo filmes como Taxi Driver e Touro Indomável, manter uma média com esse nível de excelência é algo, infelizmente, impraticável. Em Ilha do Medo, Scorsese entrega um ótimo resultado final, numa produção que garante reflexão, suspense e um nível estético atraente para o espectador.
Sua proposta ousada funciona. Em Ilha do Medo o que mais importa não é o final em si, mas sim todo o caminho percorrido para se chegar até ele. A abordagem vai de encontro à maioria das produções de suspense e terror que são despejadas nos cinemas todos os anos, em que vemos uma condução fraca com um final repleto de reviravoltas, o que de certa forma, serve mais uma vez para mostrar o seu valor como diretor. Curiosamente a maneira como a história é estruturada serve perfeitamente como uma metáfora para o que julgamos ser a loucura. Afinal, não é o que você pensa, mas sim como você age que o torna aceitável, ou não, para a maioria da sociedade. Até agora, o filme mais relevante de 2010.
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