Quem imagina que o passar dos anos poderia enferrujar José Mojica Marins ou torná-lo ultrapassado no gênero terror da atualidade, pode ter certeza que ao ver Encarnação do Demônio mudará completamente de opinião.
Zé do Caixão é impiedoso em sua volta e caminha com a mesma desenvoltura de trinta anos atrás, entre cenas extremamente violentas de tortura, frases reflexivas que caberiam num drama mais sério e um bom humor pontuado por sua personalidade inconfundível.
O cenário também é outro. O clima pacato de cidade interiorana dá lugar à movimentada metrópole São Paulo. Ainda assim ele consegue demonstrar o seu apreço pela inocência e apontar problemas sociais como crianças cheirando cola ou a violência policial.
Vale a pena conferir também o esmerado trabalho feito pela direção de arte e cenografia, além da trilha de André Abujamra e Marcio Nigro, que colaboram, e muito, para criar um clima aterrorizante, valorizando a produção.
Encarnação do Demônio é, sem dúvida, um dos melhores filmes de sua carreira e mostra o quanto mais Mojica poderia ter feito se tivesse, como teve agora, uma estrutura de produção à sua volta. Felizmente, mesmo aos 72 anos, ele não dá mostras de querer parar. |