Clive Owen, Julia Roberts, Tom Wilkinson, Paul Giamatti, Dan Daily, Lisa Roberts Gillan, David Shumbris, Rick Worthy, Oleg Shtefanko, Denis O'Hare, Kathleen Chalfant, Khan Baykal, Thomas McCarthy, Wayne Duvall, Fabrizio Brienza, Lucia Grillo, Carrie Preston, Conan McCarty, Kirby Mitchell, Christopher Denham, Christopher Mann, Seth Kirschner, Karl Bury, Happy Anderson, James Cronin, Esther Pringle, Mary Anne Prevost, Annabel Seymour, Sandy Hamilton, Ulrich Thomsen, Helen Elswit, Samantha Stark, Ronald E. Giles, Moe Hindi, Emily Hughes, Michael Jeremiah, Edgar Jimz, Kimberly Magness, Eliezer Meyer, Christopher Moser, Andrea Osvárt, Ken Sladyk, Brandon Slagle e Tamara Torres.. |
De acordo com a definição do dicionário, a palavra duplicidade, além de ser uma característica ou estado daquilo que é duplo, pode significar também má-fé. É interessante analisar como muitas vezes nos prendemos a apenas um dos muitos significados de um termo, pré-concebendo interpretações únicas em casos em que há margem para um segundo ponto de vista.
Se palavras já são complicadas, da mesma forma algumas vezes tendemos a tratar como sinônimos objetos, qualidades ou substâncias que, em seu âmago, podem ser tão opostas quanto água e óleo. Por exemplo, o que diferencia um creme de uma loção? Alguns podem apontar a sua utilização, outros o seu aspecto, e há quem diga que ambos são a mesma coisa. Mas se analisarmos o nosso exemplo mais a fundo, atentando para os detalhes, certamente teremos uma distinção clara entre um e outro, por menores que sejam as diferenças entre eles.
Com isso, façamos uma analogia. O que diferencia um bom filme de um filme mediano? Novamente, opções de distinção não faltam. Mas certamente, para cada um de nós, uma característica em especial é mais marcante do que outra. Alguns apontarão o roteiro, outros as atuações a edição ou a fotografia. O fato é que, sem nos aprofundarmos na questão, o máximo que conseguimos é ventilar hipóteses que, em parte, podem esclarecer as diferenças.
Profundidade. Esta é a palavra chave para melhor compreendermos o filme Duplicidade. A produção, escrita e dirigida por Tony Gilroy (Conduta de Risco), aposta suas fichas num roteiro bem construído e apresentado de forma fragmentada e não-linear para que o espectador monte, ao longo da produção, um interessante quebra cabeça em que nada que pareça óbvio é, de fato, verdade ou solução.
A trama é centrada em duas histórias conduzidas por quatro personagens. Ray Koval (Clive Owen) e Claire Stenwick (Julia Roberts) são dois ex-espiões do MI-6 e da CIA, respectivamente, que agora dedicam os seus trabalhos às grandes corporações privadas. Já Howard Tully (Tom Wilkinson) e Richard Garsik (Paul Giamatti) são os presidentes de duas mega corporações rivais – B & R e Equikron – que disputam palmo a palmo um concorrido mercado de cosméticos. A briga é tão grande que ambas as empresas contam com departamentos de espionagem e contra-espionagem – disfarçadamente chamados de departamentos de inteligência – que buscam incessantemente saber com antecedência quais as pretensões do seu concorrente.
Em segundo lugar no mercado e às vésperas da convenção dos acionistas do seu rival, Tully anuncia internamente a descoberta de um produto revolucionário e secreto, capaz de mudar a situação. Em um mundo onde quem anuncia a descoberta primeiro é o verdadeiro dono dela – ainda que a tenha plagiado – tem início uma verdadeira caçada em busca de várias respostas. Qual é esse produto? Como ele será lançado? Quem conseguirá lançá-lo primeiro?
A boa trama não é o único mérito de Duplicidade. Um dos grandes segredos do filme está em sua belíssima montagem. A história é apresentada em fragmentos, sendo revelados aos poucos detalhes de tramas passadas, que remetem a cinco anos antes dos acontecimentos do filme. E isso é feito com grande freqüência o que faz com que, a cada novo flashback, a história ganhe um novo rumo ou mais possibilidades sejam abertas. O grande prazer de Gilroy é apresentar pistas em um momento e negar a recompensa logo em seguida, trazendo novas pistas. Essas transições entre passado e presente são apresentadas com a tela divida em quatro partes (em constante movimento), numa alusão às ações de cada um dos quatro personagens que insistem em não ser o que aparentam.
Outro aspecto extremamente positivo é ótimo elenco envolvido. O veterano Tom Wilkinson dispensa comentários no papel de um homem imponente e astucioso e o talento Paul Giamatti serve de contraponto perfeito, mostrando-se um líder vaidoso e egocêntrico. Julia Roberts, por sua vez, mostra sua qualidade ao optar por atuar ao invés de ser apenas uma estrela (como fez na maior parte dos papéis de sua carreira). Mas o rosto carismático à frente de Duplicidade é o de Clive Owen. O ator, que ficou mais conhecido nesta década por papéis em filmes como Closer – Perto Demais e Rei Arthur na verdade, já é um veterano com bons trabalhos desde a década de 90. Seu estilo cai como uma luva no perfil de Ray e são dele os melhores momentos dramáticos na produção. Owen consegue ir de maneira fluída da comédia (como na cena em que conhece a funcionária de uma agência de turismo) ao drama (como onde segura a tensão de uma cena no carro, ao ter um de seus encontros revelados).
Com mais pontos positivos do que negativos, Duplicidade se perde em alguns momentos de sua própria trama, em que mais confunde do que conduz a história, arrastando o ritmo do filme próximo à sua metade. Embora previsível para alguns, o final consegue arrancar do espectador um sorriso ou uma expressão de espanto pela maneira irônica com que é mostrado. No entanto, essas obviedades não são nada que comprometam o resultado final que, fica aquém de Conduta de Risco (filme de estréia de Gilroy), mas revela uma promissora carreira no gênero policial para o diretor.
E assim como a diferença entre creme e loção é “apenas” uma questão de química, é o equilíbrio entre as partes que faz com que Duplicidade se mostre como uma opção agradável de entretenimento ao mesmo tempo em que aguça a curiosidade do espectador para pequenos detalhes que, no final das contas, fazem toda a diferença. |