Sacha Baron Cohen, Gustaf Hammarsten, Clifford Bañagale, Chibundu Orukwowu, Chigozie Orukwowu, Josh Meyers, Toby Hoguin, Robert Huerta, Gilbert Rosales, Thomas Rosales Jr., Marco Xavier, Bono, Chris Martin, Elton John, Slash, Snoop Dogg, Sting, Paula Abdul, Richard Bey e Ron Paul. |
Após terminar de assistir Bruno só existem dois sentimentos possíveis na mente do espectador quanto ao filme: amá-lo ou odiá-lo. Gostando ou não, a grande verdade é que é impossível ficar indiferente à produção ou mesmo agir com naturalidade diante de uma mistura de cenas grotescas com um conteúdo crítico feito com um cinismo assustador.
Sacha Baron Cohen ganhou notoriedade em 2006 criando um personagem patético, estúpido e carismático. Borat, um glorioso repórter do Cazaquistão que viajava aos Estados Unidos embasbacado com a cultura local. Entre altos e baixos, Borat desfilava piadas cretinas, colocando em situações vexatórias cidadãos que, em tese, estavam agindo de maneira séria, realmente acreditando que aquilo tudo se tratava de um entrevista.
O caráter documental do filme, intercalado com esquetes de humor, causava a impressão que ora tudo não passava de uma brincadeira, ora a coisa era tão séria a ponto de nos perguntarmos quem é mesmo que estava fazendo o papel de estúpido na história. O filme se tornou um sucesso e, embora com muitas críticas, mais divertia com um personagem do tipo “bobo” do que chocava.
Engana-se aquele que criar a expectativa de que Bruno é uma comédia. Não é. Comédias tem como sua principal característica humor e diversão. Bruno tem como principal característica o cinismo e um jeito de ser grotesco que se choca contra outras situações mais obtusas e ignóbeis que, de certa forma, devolve-nos, na mesma moeda, qualquer senso de valor que possamos colocar sob júdice enquanto presenciamos cenas, no mínimo, dantescas.
O personagem Bruno é um caricatura em pessoa. O extremo estereótipo de um homossexual, que vive o mundo da moda e apresenta um famoso programa em seu país de origem, a Áustria. Sua vida e seus valores são fúteis, assim como são fúteis os valores propagados a sua volta. Sem sorte, ele parte para a América para tentar a vida no glamuroso mundo de Hollywood e se tornar “a segunda maior estrela pop da Áustria, depois de Adolph Hitler”.
É na América que Bruno aponta o dedo para o Tio Sam, utilizando-se dos mesmos estigmas e preconceitos que poderiam muito bem ser apontados contra si mesmo. Assim é quando tenta promover o seu próprio programa e, sem móveis, decide usar mexicanos como cadeiras para que seu convidados possam se sentar. Não é o mesmo que a América faz com alguns dos seus imigrantes, literalmente fazendo com que eles carreguem a elite nas costas com seu trabalho sem maiores reclamações?
Seu programa piloto é detestável, de conteúdo inexistente, e limita-se a mostrar o apresentador em poses sensuais. As atrações – uma entrevista exclusiva com Harrison Ford ou a análise do futuro bebê de uma pseudo-celebridade – são tratadas com o sensacionalismo habitual de programas de fofoca. Ao final, uma cena de nu frontal masculino descabida encerra o programa. Não é o mesmo que a América apregoa em seus programas, onde modelos semi-nuas exibem o corpo e nenhum conteúdo em debates intermináveis sobre temas tão esdrúxulos que não levam a lugar algum?
E o que dizer de sua tentativa de virar uma celebridade, adotando uma criança de um país africano, ainda que não saiba apontar em que lugar ele fica no mapa, colocando a imagem de um alguém preocupado com o bem-estar da humanidade acima de toda e qualquer suspeita. E, claro, não só adotá-la, mas fotografá-la e exibir o “troféu” da forma mais repetitiva possível de maneira a ganhar os tão sonhados quinze minutos de fama? Não é o mesmo que América, com seus astros e estrelas pré-fabricados faz?
Sacha Baron Cohen, por meio de Bruno, confronta a cada momento as duas infelizes verdades. A verdade grotesca de Bruno com a verdade velada da América. E o que é mais interessante: algumas pessoas, com certeza, vai ficar mais chocadas ou vão desprezar o filme pelo fato de ter visto o pênis de Bruno ou por vê-lo ridicularizando mexicanos. Mas não serão, de forma alguma, capazes de ficarem estarrecidas com as inutilidades vistas nos programas de celebridades na TV ou mesmo no “comércio” de imagem que se tornou o fato de defender uma causa nobre em país longínquo como currículo para se tornar respeitado.
Sinceramente, a realidade apresentada de maneira cruel – ainda mais quando confrontada com o humor – é muito pior do que o linguajar vulgar de Bruno ou sua exibição sexista a cada nova sequência. É mais ou menos como aquelas camisetas, que criticam o capitalismo e suas empresas, que são feitas utilizando-se dos mesmos apelos comerciais – inclusive com as mesmas fontes das logomarcas ditas símbolos do capitalismo - para criar um ar “cool”, antenado e crítico.
Bruno, enquanto cinema, apresenta diversas falhas. Algumas seqüências soam forçadas e desconexas, como se, numa tentativa de reforçar o seu ponto de vista, a verdade fosse exacerbada a tal ponto que deixasse de ter credibilidade. Ritmo e fotografia também são vítimas de altos e baixos, ora muito bem feitos (como a produção “européia” do filme) ora confusos e sem necessidade (como no encontro de casais de swing).
Sob a ótica cinematográfica, gostar ou não da produção Bruno é um livre arbítrio de cada um e, certamente, esse é o típico filme que irá dividir opiniões. Agora, ficar chocado com sua nudez ou com a maneira cretina, estúpida e apelativa com que Sacha Baron Cohen se mostra no vídeo e deixar de lado todo o preconceito que é denunciado como pano de fundo na produção – e que, em maior ou menor grau, de fato existe – é agir de uma maneira tão grotesca quanto qualquer uma das partes. Se pra você um personagem caricato incomoda mais do que a própria realidade que ele satiriza ou denuncia, meus parabéns: você é um perfeito hipócrita. |